sábado, dezembro 29, 2007

Um Ano de Nederland

Eu fiz um ano de Nederland no dia 27 de dezembro de 2007.

Acho que é uma boa hora para fazer uma retrospectiva.

Eu vim para cá com o coração quebrado, sem dinheiro, sem perspectiva de futuro, querendo me esconder no buraco mais escuro e mais profundo que eu conseguisse encontrar. Trouxe comigo tudo o que eu tinha: duas malas cheias de roupa, um saco de dormir e uma manta de dormir que eu comprei quando cheguei em Portugal, e consegui fazê-lo graças ao Nélson Ferraz, que foi um amigão, veio comigo, passou uns dias aqui e me deu um grande apoio no começo.

Não conhecia ninguém daqui, não tinha amigos na cidade.

Não sabia falar a língua e tinha um inglês de merda.

Dormi no chão por três mêses, numa casa sem móveis e sem conforto, enfrentando ratos e lutando para não me deixar vencer pela depressão.

Tive alguns bons momentos, claro. Eu nunca vou esquecer o dia que eu fiz caipirinhas no trabalho... :)

Aluguei um apartamento, me mudei para ele, montei meus móveis sozinho: primeiro o quarto, com cama e guarda-roupas, depois o escritório, alguns móveis para a lavandeiria e o meu banheiro, e finalmente a sala de estar (com TV e video-game).

Mais ou menos na mesma época, eu disse tudo o que estava entalado na minha garganta para um ex-amigo (nunca achei que eu fosse perder um amigo na minha vida, mas, como dizem os holandeses, "shit happens").

Também fiz novos amigos. Por exemplo, a Ann e o Bastiaan, que me convidaram diversas vezes para jantar, e a Maria Hernandez, uma espanhola maluquinha mas boa gente, e o Norberto, um argentino muito esperto mas um tanto nervoso.

Passei a páscoa de 2007 sozinho, mas foi legal. :) Eu fui à missa e passeei.

Fui me adaptando aos costumes holandeses, e finalmente me comprei uma bicicleta.

Me comprei um telefone celular novo, topo-de-linha, e não gastei nada.

Participei do Clube do Livro, aqui de Amsterdam, por uns tempos. Depois, desisti - o pessoal não era muito falante, estavam apenas interessados nos livros. E não eram exatamente nos mesmos livros que eu gosto de ler.

Torci meu tornozelo direito, o primeiro acidente sério que eu tive em Amsterdam.

Viajei a Portugal — embora minha bagagem tenha ido à França — para visitar os amigos, me lembrar de tudo o que eu passei por lá, e tratar do meu processo trabalhista contra a Segula.

Meu discurso de aniversário já anunciava melhoras significativas neste ano que passou, como vocês podem conferir aqui.

Depois de seis mêses sem computador em casa (o mais longo período que eu passei longe dos processadores desde 1995, quando eu ganhei um da finada Revista Exame Informática, no Brazil), finalmente eu consegui dinheiro o bastante para comprar um por aqui.

Deste momento em diante, a minha vida foi ganhando momento outra vez. Começou com o Joel Bernstein me apresentando o Dave Hodgkinson, seguido do primeiro Dim Sum, que foi onde começou a nascer a idéia de ir trabalhar no RIPE NCC.

O Igor veio para Amsterdam, finalmente, em 22 de julho de 2007. Mais uns tempos e vem a esposa, e eles vão recomeçar a vida aqui.

Neste meio tempo, recebi também o Manuel Gomes, que veio atrás da mesma coisa que todo mundo: melhores condições de trabalho e mais qualidade de vida. Foi bom hospedar você por aqui por aquele tempo, Manuel. :) Feliz aniversário.

O verão foi bem aproveitado, com caminhadas e fotos bonitas.

Ir à Vienna, na Áustria, para a conferência de Perl foi ótimo, e eu trouxe algumas fotos de lá. Eu adorei a viagem, e quero fazer outra vez, breve.

Mais ou menos por este tempo eu comecei meu primeiro módulo do curso de holandês na Universiteit van Amsterdam. Fiz mais amigos por lá, como o Eric Herman e a Ace, um casal de estadounidenses que se mudou para a Amsterdam para estudar (a Ace) e trabalhar (o Eric).

Sofistiquei minha culinária, aprendendo a usar o forno, e cozinhei umas coisas interessantes neste meio tempo. Como o salmão assado, que eu fiz num domingo...

Por causa do baixo nível de estresse na vida cotidiana, e da melhor qualidade de vida, eu consegui normalizar a minha pressão arterial. Bom, eu acho que estar abaixo do nível do mar também pode ter ajudado...

Em novembro, eu mudei de emprego, e comecei a trabalhar numa das organizações que mantém a espinha dorsal da internet.

Finalmente, em dezembro, já com a casa completa, eu dei a minha primeira festa, e não pretendo parar por aqui: vai ter mais assim que a leseira do final de ano passar.

Em resumo: meu ano foi um grande crescendo, e eu estou admirado e impressionado com a quantidade de coisas que eu fiz e vivi neste tempo. Finalmente eu tive uma experiência de vida que se possa chamar de "internacional".

Mais importante do que isso: finalmente eu fui obrigado a viver por minha conta, a tomar conta de mim mesmo e a fazer o que é melhor para mim, não o que as pessoas em torno de mim acham melhor ou esperam de mim.

Se alguma coisa este tempo de luta, sofrimento, alegria, aprendizado, diversão e conquistas me ensinou foi que eu estou pronto para tudo o que der e vier.

Eu me sinto grande e forte como fazia muito tempo que eu não me sentia!

Que venha 2008! E que venha com reforços, ou não vai durar até o final do ano! ;)

3 comentários:

Igor Sutton disse...

Feliz ano novo :-)

Eu sei que não foi um prazer tão grande prá ti hospedar a mim e a minha esposa quanto foi o Manuel, mas eu consigo entender ;-)

Esperamos que este crescimento continue durante os próximos anos :-)

Abração "vizinho"!

marmita disse...

Gostei!!
Parabéns!, continue assim!
Disposição, otimismo, garra, força, coragem, é isso aí.

russoz disse...

Fields, eu me emocionei com esse seu post, nego. Eu lembro de você, em 97, aprendendo esse tal de perl e, quero acreditar, isso ajudou a te levar até onde você está agora.

Cara, que 2008 venha com muito mais alegrias e conquistas para você!! E fica esperto, nego, que eu ainda vou passar uma temporada aí na sua casa (eu acho que ne$te ano não vai rolar ;-) )

[]s