segunda-feira, novembro 24, 2008

Orgulho Empala(vra)do

Isto era um comentário que eu tinha a intenção de postar no blog Empalavrado, em resposta a este artigo. Mas isso está definitivamente muito grande para ser um comentário, então vou postar ele no meu próprio blog.

O Sergio Keuchgerian fala sobre o centro da cidade, e sobre os habitantes que ocupam as marquises e praças. Ele chega a ser explícito quando, divagando, conta o episódio em que ele avistou um destes pobres coitados defecando em público, e conta como a cena, chocante, lhe acompanhou durante alguns dias.

Das muitas coisas que me empurraram a viver fora do Brasil, a pior, a mais forte e a que me empurrou mais longe da minha cultura, da minha gente e da minha Terra foi, sem dúvida, o descaso social do nosso coletivo para com estas pessoas.

Fugi por não suportar ver estas cenas todos os dias, por não suportar a minha impotência diante do triste espetáculo da corrosão de tantos seres humanos, carcomidos até aos seus ossos, desumanizados ao ponto de não mais se importarem se defecam em público - que muitos sociólogos vão apontar como um dos fatores separadores entre as sociedades modernas e o caos medieval.

Fugi por raiva, por medo da fúria assassina que a mera idéia de alguém passar por isto desperta em mim, contra todos os responsáveis (e quem, exatamente, são os responsáveis por este triste espetáculo diário?); por medo de um dia tentar cometer uma bobagem e me meter numa encrenca muito grande por causa da minha revolta.

Me exilei por desânimmo, diante da falta de vontade das vítimas de tal tratamento, que não se revoltam, não se rebelam, mas (sobre,sub)vivem, mansamente, humildemente, naquele calvário diário cuja a única saída parece ser a morte, que vem lenta e sem pressa, e sempre tarda mais um dia do que deveria.

Eu não me considero um covarde. Eu tenho inimigos, gente de quem eu não gosto e que me prometi excluir total e completamente da minha vida para sempre, um sinal claro de que um dia me levantei contra alguém, por alguma coisa, para parafrasear um não tão grande mas muito perspicaz estadista inglês.

Mas o tempo e a experiência me ensinaram a escolher e lutar pelas batalhas que eu posso ganhar. Não que eu me orgulhe disso. Diante destas cenas, sinto como se qualquer orgulho - de ser brasileiro, de ser cidadão do mundo, de ser humano - estivesse morto, derrotado, horrivelmente empalado. Empala(vra)do.

2 comentários:

Frederico disse...

Interessante. Quanto eu tinha 16 anos, eu fiz um documentario onde eu sai com uma camera e fazia diversas perguntas a varios moradores de rua. E depois visitei varios albergues.
Inclusive vou preparar um post no meu blog como resposta com os detalhes para você. Infelizmente meu professor da escola nunca mais me devolveu a fita.

Mas a questão que eu verifiquei, foi que a maioria se auto excluiu da sociedade por escolha propria. Simplesmente não se submeteu as regras que todo mundo se submete, alguns por não terem como competir "no mercado", outros porque um conjunto de situações aconteceu.

Especialmente sobre os albergues, dos 5 que eu visitei, se eu fosse fazer a escolha, eu ficava na rua.

[]'s

marmita disse...

Concordo com o `Frederico`, quanto aos albergues, mas discordo quanto às causas que levam as pessoas a se colocarem à margem da sociedade/regras/família/etc.
Pode ser que o `cara`em questão (o cagão), esteje simbolicamente, defecando para todo mundo, desprezando todo o sistema, sociedade, familia, etc.
Talvez esta pessoa tenha descoberto o que nós ainda não descobrimos.
Paulo de Tarso, o São Paulo, aquele da Bíblia, escreveu: `para mim tudo não passa de merda`, depois de ter passado por uma experiência mística!!
Veja os hindus, hoje em dia, tendo o Ganges como um rio sagrado, tomando banho nêle, bebendo sua água, etc.; e o esgoto de `Mumbai, para onde vai?
Tergiverso?
Estou viajando?
Discordo de você Luís, quanto a ter partido em exílio, fugido, ou qualquer coisa parecida...
Penso que você foi em busca de novos `mundos`, novas oportunidades...
O Geraldo Vandré cantava uma música que não me sai da cabeça, em todos estes anos: `...mas a vida não mudava mudando só de lugar.`
E o cagão, ficou sem ajuda!!